23/12/10

Heróis de Papel [por Júlia Félix]

Fatal acontecimento este que denomino cinismo iminente, aquela postura “vale-tudo” de ser. Hoje você pode facilmente descartar um produto-pessoa que não lhe serve mais. Lembro-me do dito: “Ponha seu coração em tudo, é melhor sofrer inteiramente que andar quebrado”. A modernidade nos vende a poção mágica do descompromisso, mas no fundo sabemos que não bancamos o efeito colateral da mesma. O estranho disso tudo é que nem sempre sabemos que estamos comprando pela embalagem. Às vezes ela (a poção), vem com as cores vibrantes de um pensamento progressista forjado, mas é tão retrógrado quanto pegar atalhos. Esse fenômeno do cinismo iminente é um processo de negociação da sua inteireza.
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Mais ou menos assim: hoje eu negocio o que eu penso sobre respeitar o outro, e valorizá-lo, mas faço-o de forma sutil, usando o discurso de que o que aconteceu naquele momento foi coisa do momento e não precisamos ser responsáveis pelo que vem depois. Grandes “heróis” esses da nossa atualidade...
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Eu fico pensando onde isso tudo teve começo; e penso, porque já percorri esse caminho “pré-cinista” (permitam-me aqui o neologismo), mas fui impedida por um mínimo de hesitação de consciência e reflexão interna. Sabe o que a verdade tem de mais bonito? Ela nos deixa nus, desmaquiados, perplexos; como no mito (ou não) “Adão e Eva” do livro bíblico de Gênesis. A verdade reflete do outro para nós mesmos. Nós olhamos a nossa potencialidade de inverdade no erro do outro. E é muito triste não ter forças pra lutar contra isso, ou pelo menos não refletir sobre. Falar sobre verdade, inteireza, nos coloca em xeque com a gente mesmo; aquilo que fingimos ser até que estejamos sozinhos no palco.
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“Sobre tudo que tiveres que guardar, guarda o teu coração; porque dele provém as fontes da vida” Provérbio Bíblico

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