03/04/11

Palhaço

Não Canto [Ricardo Reis]

Não canto a noite porque no meu canto

O sol que canto acabara em noite

não ignoro o que esqueço

canto por esquece-lo

pudesse eu suspender, inda que em sonho,

o Apolíneo curso, e conhecer-me

Inda que louco, gêmeo

de uma hora imperecível.

Quando estou triste, dedico-me à tristeza, faço dela intensa, inteira e minha, tanto quanto tiver que ser. Pra que a alegria, quando vier, se vier, não precise ser também tristeza, alegria-tristeza. Não precise dedicar-se ao que se esconde e impregna todas as outras emoções.


Demorei a aceitar a vida e movimento próprios das emoções, alheias a vontade e fiéis a estímulos.


Sorrir pra afastar a tristeza é tão eficiente e patético quanto abraçar alguém pra matar a falta de outro alguém. Afastar a tristeza é alienar-se do corpo, da pele, das sensações, incluindo a alegria buscada na fuga. Abandonar a emoção proposta, seja qual for, é abandonar junto o que de bom virá após o mal, e o que de bom virá com o mal.


A alegria na tristeza é a desonestidade de quem, mergulhado na escuridão, fabrica imagens. Construtor de mentiras, perdido entre elas.


Uma existência inteira.

Tristeza e Alegria, sendo triste e alegre.

Pra não ser um triste alegre.

1 ...:

Lu disse...

Lindo. Absolutamente lindo.

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