Não Canto [Ricardo Reis]
Não canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabara em noite
não ignoro o que esqueço
canto por esquece-lo
pudesse eu suspender, inda que em sonho,
o Apolíneo curso, e conhecer-me
Inda que louco, gêmeo
de uma hora imperecível.
Quando estou triste, dedico-me à tristeza, faço dela intensa, inteira e minha, tanto quanto tiver que ser. Pra que a alegria, quando vier, se vier, não precise ser também tristeza, alegria-tristeza. Não precise dedicar-se ao que se esconde e impregna todas as outras emoções.
Demorei a aceitar a vida e movimento próprios das emoções, alheias a vontade e fiéis a estímulos.
Sorrir pra afastar a tristeza é tão eficiente e patético quanto abraçar alguém pra matar a falta de outro alguém. Afastar a tristeza é alienar-se do corpo, da pele, das sensações, incluindo a alegria buscada na fuga. Abandonar a emoção proposta, seja qual for, é abandonar junto o que de bom virá após o mal, e o que de bom virá com o mal.
A alegria na tristeza é a desonestidade de quem, mergulhado na escuridão, fabrica imagens. Construtor de mentiras, perdido entre elas.
Uma existência inteira.
Tristeza e Alegria, sendo triste e alegre.
Pra não ser um triste alegre.
1 ...:
Lindo. Absolutamente lindo.
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